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Aura Pinheiro

Mais tempo para o café entre amigos

Em julho de 2016, justamente no mês do seu aniversário, ela recebeu uma notícia inesperada: tinha um tumor triplo negativo na mama, do tipo mais agressivo da doença. “Naquele instante, tive a sensação de que a vida havia sido dividida em duas partes: antes e depois daquele diagnóstico”, conta a jornalista Aura Pinheiro, a Aurita para os amigos.

 

Aliás, amigos foi o que não faltou entre os muitos apoios que chegavam de todos os lados. Depois do tratamento, de meses convivendo com a tristeza e da vitória, Aurita fez as pazes com a alegria que sempre teve e passou a valorizar muito mais a vida e os momentos simples. “Desenvolvi uma relação mais equilibrada com o trabalho, retomei as minhas caminhadas matinais e o melhor: incluí em minha rotina espaço para o café com os amigos”, relata.

 

As primeiras ajudas vieram de dentro da própria família, de duas médicas patologistas: a cunhada Monica Pureza que fez a biópsia, e a tia Lucília Pinheiro, do corpo médico do Instituto Nacional do Câncer (Inca). As conversas esclarecedoras com elas foram fundamentais para Aurita enxergar a doença sem dramatizações e consciente da realidade. “Mesmo assim, o medo passou a fazer parte da rotina de exames e incertezas. Meu maior alívio aconteceu na primeira consulta com o doutor Alexandre Coury, indicado pela Monica. A forma humana, acolhedora e atenciosa com que ele conduziu meu tratamento desde o início me trouxe a segurança de que eu precisava naquele momento”, assegura Aura.

 

O tratamento começou com a mastectomia feita pelo cirurgião oncológico Rodrigo Souto por indicação de Alexandre Coury, e seguiu com seis meses de quimioterapia, uma das fases mais difíceis para Aura, que emagreceu muito, mas foi fortalecida pelo carinho dos pais ao seu lado em praticamente todas as sessões. “Esse aconchego tornou aquele período muito mais leve. Minha mãe aproveitava o tempo e ia à Igreja Porciúncula, perto da unidade da Oncomed onde fiz as quimios, e lá rezava por mim e por todos os que estavam em tratamento. Meu pai levava pão de queijo quentinho e mate bem gelado para a sala onde eu procurava conversar com outros pacientes contando histórias divertidas e folheava a revista Caras para tornar aquelas horas menos desgastantes”, lembra Aura.

 

Quase ao mesmo tempo, ela iniciou o preparo para a reconstrução da mama realizada um ano depois, em 2017, com a colocação do silicone e a aréola em forma de tatuagem, quando a jornalista sentiu ainda mais tristeza.

 

“Incrível como só após à reconstrução que a minha ficha realmente caiu. Convivi meses com a tristeza e tentando aprender a lidar com o medo de que aquele fantasma pudesse voltar. E hoje, aos 60 anos, quando olho para aquele longo e difícil período, percebo o quanto damos importância a tantas pequenas coisas que, na verdade, não importam”, garante Aura.

 

E os perrengues vividos durante o tratamento proporcionaram à Aurita outras grandes descobertas, como o fortalecimento da amizade com a filha Isabella, na época com 10 anos. “Nossa relação ganhou ainda mais cumplicidade. Às vezes viajamos só nós duas, em verdadeiras aventuras de mãe e filha, colecionando memórias que hoje considero alguns dos maiores presentes da vida”, diz feliz. 

 

Ao lado de Flavio Edamatu, seu “parceiro de vida”, Aura descobriu também o prazer dos avistamentos de aves, a grande paixão do companheiro. “São momentos de contemplação, aprendizado e delicadeza que me ensinaram a olhar a natureza e a própria vida com mais calma e curiosidade. E lá se vão dez anos de cura, dez anos de uma nova maneira de viver, com mais gratidão, presença e coragem. Afinal, como escreveu Guimarães Rosa, “O que a vida quer da gente é coragem”, recomenda Aura a todas as mulheres que passam pela mesma caminhada. 

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